FRANCISCO ADOLFO VARNHAGEN E O INSTINTO DE AMERICANIDADE DA LITERATURA BRASILEIRA
Luiz Roberto Cairo - UNESP/CNPq
Momento dos mais interessantes na história da literatura brasileira é aquele em que empenhados na construção da identidade nacional, os críticos românticos, num enorme esforço conjunto, perguntaram-se pela vez primeira o que era ser brasileiro e o que um texto precisava realmente ter para ser considerado nacional.
Este momento privilegiado no que se refere às polêmicas e talvez esteticamente frágil e pobre, dependendo do que efetivamente queiramos nele enxergar, desperta sempre uma enorme curiosidade nos estudiosos desta literatura que, palidamente, começava a se esboçar.
Dentre os inúmeros aspectos que então se afiguravam nos textos destes primeiros críticos brasileiros, o americanismo, certamente, é um dos que mais me tem particularmente interessado. E o que seria este espírito de americanidade, este sentimento de pertença à América (Bernd e Campos, 1995, p. 5), que tão de perto parece ter acompanhado a construção do instinto de nacionalidade nos textos dos escritores brasileiros?
Em artigo relativamente recente, datado de 13 de novembro de 1977, publicado em O Estado de São Paulo, sob o título de “Cristóvão Colombo”, o crítico Hélio Lopes (1919- ) definiu o americanismo como uma exaltação do continente americano, visto como um dos aspectos do nacionalismo romântico brasileiro.
Para ele, este aspecto vem à tona:
Quando os nossos poetas ou romancistas engrandecem a própria terra, reassumem a visão paradisíaca das crônicas e dos poemas dos séculos coloniais, realçando ou acrescentando-lhes agora a melodia nova do orgulho do berço e da posse. (Lopes, 1997, p. 283)
Este sentimento contudo não se restringiu apenas aos limites das terras brasileiras, mas se estendeu principalmente pela América Latina, a ponto dele constatar a existência de dois ângulos distintos no americanismo:
(....) ainda o culto da natureza virgem e grandiosa, não necessariamente exótica em oposição à natureza européia, embora esta fisionomia se possa distinguir, e o culto dos heróis nacionais. Confluem estes dois ramos para a exaltação única da Liberdade. (1997, p. 283)
Vale ressaltar aqui o fato curioso de que Hélio Lopes vê neste americanismo dos românticos brasileiros uma usurpação mesmo do termo América.
Tomamos então para nosso uso, diz ele, a cordilheira dos Andes, o condor e os vulcões. E chega-se a roubar o próprio nome da América para restringi-lo ao Brasil. (1997, p. 283)
Exemplificando com o poema “Anchieta ou o Evangelho na Selva” (1875), de Fagundes Varela (1841-1875), no qual a América se apresenta primeiro, no Canto II, como uma reminiscência clássica, bíblica, da terra prometida, e no fechamento do poema, no Canto X, confundindo-se com o Brasil, aos olhos de Anchieta moribundo, ela aparece como “o império da Lei, - a majestade/ Suprema da Justiça”, casando-se com os ideais românticos também quando se caminha para o passado, na revivescência das lendas primitivas, na procura do berço das raças antigas. (1997, p. 284)
No fundo, Hélio Lopes procura mostrar, apoiado no texto De la Poesía en el Brasil (1855), do escritor espanhol Juan Valera y Alcalá Galiano (1824-1905), cujos fragmentos foram publicados na revista Guanabara (1849-1856), a existência de uma épica romântica brasileira, pouco explorada pelos pesquisadores da nossa literatura, da qual o poema Colombo (1866), de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), é um dos produtos mais significativos, e que é fruto do gosto português, pois, de acordo com a avaliação de Fidelino Figueiredo (1889-1967), o feito de Colombo não despertou na Espanha uma épica de aventura marinha como a tiveram os portugueses (1997, p. 284).
A observação de Hélio Lopes diz respeito principalmente aos textos poéticos românticos, no entanto, venho observando que também na crítica, quase todos os textos da fase que costumo chamar dos bosquejos, parnasos e panteóns, em diferentes graus, de alguma forma, este sentimento de americanidade está presente ao lado do instinto de nacionalidade, haja vista o “Ensaio sobre a história da literatura do Brasil” (1836), de Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882), publicado, em Paris, na Niterói, Revista Brasiliense (1836) ou “Da nacionalidade da literatura brasileira” (1843), de Santiago Nunes Ribeiro (?-1847), publicado na Minerva Brasiliense (1843-1845), ambos tidos como verdadeiros manifestos da literatura romântica brasileira.
Quando da publicação, em 1850, do “Prólogo” escrito em 1847 e dos dois primeiros volumes do Florilégio da Poesia Brasileira ou Coleção das mais notáveis composições dos poetas brasileiros falecidos, contendo as biografias de muitos deles, tudo precedido de um Ensaio histórico sobre as letras do Brasil, do crítico e historiador romântico Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878), barão e visconde de Porto Seguro, cuja relevância costuma estar no estabelecimento do cânone da literatura brasileira, percebe-se uma forte presença do instinto de americanidade.
O “Prólogo” abre-se com uma contextualização do corpus, onde Varnhagen fala em tantas poesias inéditas ou raras, por antigas ou por extraviadas, que as investigações a que nos temos votado sobre a história da América nos haviam deparado (Varnhagen, 1987, I, p. 13), e como precisasse estabelecer critérios para a seleção do material a ser publicado, por força do mesmo ser muito extenso, deixa-se guiar tanto pelo valor estético advindo da tradição clássica, quanto pelo “entusiasmo” americano, o que significou uma escolha de textos menos burilados, onde o Brasil aparece mais explicitamente representado:
Como o entusiasmo que temos pela América, onde vimos a luz, e a fé no desenvolvimento futuro de sua poesia, era um dos nossos estímulos, julgamos dever dar sempre preferência a esta ou àquela composição mais limada, porém semi-grega, outra embora mais tosca, mais brasileira, ao menos no assunto. (1987, I, p. 13)
No entanto, deixa escapar que esta opção conseqüentemente despertarámais interesse no leitor europeu, devendo lisonjear o americano, vendo que vai já para dois séculos havia no Brasil quem julgava que se podia fazer poesia sem ser só com coisas de Grécia ou Roma. (1987, I, p. 13)
Quanto à escolha do título Florilégio da Poesia Brasileira, que a lusofobia reinante no horizonte de expectativas do público brasileiro o leva a inventar, afastando-se assim do termo Parnaso, que seria uma referência explícita ao Parnaso Lusitano, de Almeida Garrett, desculpa-se, justificando não se tratar em absoluto de uma pretensiosa escolha do que há de melhor na poesia do Brasil, mas volta a insistir:
(...) repetimos que não queremos por isso dizer, que oferecemos o melhor desta, porém sim (com alguma exceção) o que por mais americano tivemos. Escolhemos as flores, que julgamos mais adequadas para o nosso fim, embora seja alguma menos vistosa, outra pique por alguns espinhos, esta não tenha aroma, aquela pareça antes uma descorada orquídea, e aqueloutra uma parasita criada com ajuda de seiva alheia, etc. (1987, I, p. 14)
Refletindo a respeito de que autores poderiam ser considerados brasileiros, opta pelo nascimento no Brasil, por tratar-se de princípio mais geral, bem como em direito internacional, quando não há declaração em contrário, a nacionalidade de origem prefere à do domicílio. (1987, I, p. 14)
Ainda no “Prólogo”, recusa-se a abordar a questão da divisão das literaturas portuguesa e brasileira, não por julgar impossível pela uniformidade da língua, mas porque:
Repugnará sempre a nosso ânimo entrar em tal questão, por nos parecer que os argumentos de parte a parte poderão correr o risco de sair mal entendidos preconceitos de amor próprio nacional numa questão literária. (1987, I, p. 15)
Finalmente, evidencia a importância de, no Brasil, estudarem-se a gramática portuguesa, os clássicos de modo geral e não apenas os portugueses, ao dizer:
(...) lembramos que Byron, com seu grande gênio, e Irving e Cooper, por serem poetas tão originais e americanos, só conseguiram tão brilhante nome, depois de haverem estudado muito, os livros antigos e modernos da literatura inglesa. (1987, I, p. 16-17)
O “Ensaio histórico sobre as letras no Brasil” inicia com uma reflexão a respeito do esplendor das duas nações do extremo ocidente da Europa, Portugal e Espanha, durante o século XVI, época do descobrimento da América e do início de sua colonização e, paralelamente das transformações por que passaram o Português e o Castelhano ao serem transportados do Velho para o Novo Mundo.
Nestas reflexões, Varnhagen observa que o Português se manteve mais íntegro e por isso mesmo mais próximo de sua filiação galego-asturiana, sem corromper suas articulações latinas, ao passo que o Castelhano, em decorrência da arabização, viu suas articulações latinas sensivelmente alteradas.
O fato porém do Português ter-se mantido mais polido não fez com que na América portuguesa houvesse uma literatura de melhor qualidade, isto porque no início da colonização, diz ele:
Não era no Brasil que os ambiciosos de glória tratavam de buscar louros para colher, pois essa ambição elevada se satisfazia melhor na África ou na Ásia. Ao Brasil ia-se buscar cabedais, fazer fortuna; e as miras do literato alcançam mais alto; não é aos gozos, nem mesmo às glórias terrenhas a que aspira - é à glória imortal. (1987, I, p. 40)
Decorrente desta postura do colonizador, na produção literária dos poetas e prosadores portugueses de então, haja vista Camões, os acontecimentos eternizados em suas representações tinham ocorrido na Ásia e África.
Ao Brasil, comenta Varnhagen, não passavam poetas: é, pois, necessário esperar que ele se civilize, e que os poetas aí nasçam e vigorem seus frutos. (1987, I, p. 40)
Por isso, no século XVI, o Tratado Geral do Brasil, de Gabriel Soares, datado de 1587, mas impresso apenas no século XIX, seria a única obra mais extensa escrita sobre o Brasil.
O famoso gosto dos indígenas brasileiros pela música e pela poesia, na verdade será útil aos missionários que deles se utilizaram principalmente para facilitar a catequese. Embora os indígenas fossem poetas e músicos e tivessem boas vozes, pecavam por ser demasiado monótonos e no que se refere ao assunto das cantigas era em geral as façanhas de seus antepassados; e arremedavam pássaros, cobras e outros animais, trovando tudo por comparações, etc. (1987, I, p. 41)
Por isso mesmo, Varnhagen não defende a existência de uma contribuição literária mais relevante dos indígenas brasileiros, questionando mesmo de forma radical:
Não será um engano, por exemplo, querer produzir efeito, e ostentar patriotismo, exaltando as ações de uma caterva de canibais, que vinha assaltar uma colônia de nossos antepassados só para os devorar? (1987, I, p. 44).
Na América hispânica porém, o colonizador tem uma postura diferente, não possuindo as Índias Orientais, acaba investindo, desde o início no Novo Mundo, o que, conseqüentemente, se reverte mais cedo numa produção literária mais intensa que a da América portuguesa.
Data de 1569, a impressão da primeira parte da Araucana, do soldado espanhol Ercilla, no Chile, e de 1605, a publicação dos dezenove cantos do “Arauco Domado”, de Pedro d’Oña, poeta nascido na América.
Talvez por isso na literatura hispano-americana, o americanismo tenha surgido naturalmente bem antes da construção do instinto de nacionalidade, que, surgindo nos textos brasileiros, no século XIX, irá desencadear a consciência americana, abrindo espaço para a épica romântica apontada por Hélio Lopes, reflexo da americanidade presente nos textos dos críticos e historiadores românticos como foi o caso destes do Visconde de Porto Seguro, fruto, quem sabe, de uma usurpação seguida de uma redução do nome de América para Brasil. No que não vejo nenhum problema, uma vez que todos somos americanos.
BERND, Zilá, CAMPOS, Maria do Carmo (Orgs.) Literatura e americanidade. Porto Alegre-RS: Editora da Universidade/UFRGS, 1995.
CANDIDO, Antonio. A consciência literária. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. V. 2. São Paulo-SP: Martins, 1971, p. 317-369.
LOPES, Hélio. Cristóvão Colombo. Letras de Minas e outros ensaios. (Alfredo Bosi) São Paulo-SP: EDUSP, 1997, p. 283-289.
MOREIRA, Maria Eunice, ZILBERMAN, Regina. O berço do cânone: Textos fundadores da História da Literatura Brasileira. Porto Alegre-RS: Mercado Aberto, 1998.
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. Introdução: Ensaio histórico sobre as letras do Brasil. Florilégio da Poesia Brasileira. T. I. Rio de Janeiro-RJ: Academia Brasileira de Letras, 1987, p. 39-73.
____. Prólogo. Florilégio da Poesia Brasileira. T. I. Rio de Janeiro-RJ: Academia Brasileira de Letras, 1987, p. 13-17.